Meu Melhor Erro - Nasi

30-Mar-2017

 

Na verdade eu vou falar duas situações, porque tem a ver. As duas são ligadas a minha situação de músico, de artista da música.

 

A primeira é como comecei. Eu comecei era meio que uma brincadeira de escola no final da virada dos anos 70 para os anos 80, o país vivia um espírito de uma ditadura, censura militar. E a tal coisa da música começou a acontecer na escola de uma maneira totalmente despretensiosa e amadora como deveria ser.

 

E eu, na época, ingressei na faculdade de história, entrei na Universidade de São Paulo, que era a melhor faculdade de História do país. Eu entrei na faculdade de História em 1981, ano em eu que fundei o Ira!, ainda de forma despretensiosa, num festival punk. Em 1982 dava para conciliar ainda com a faculdade, com aquela música muito alternativa, meio underground. A partir de 1984, o rock no Brasil começou a passar a um fenômeno de mercado, tivemos o Rock in Rio, e em 1985 e o Ira! já gravou seu primeiro disco multinacional, e aí o sucesso veio à tona.

 

Em 1985 eu resolvi largar a faculdade, apesar que isso causou toda uma apreensão muito grande na minha família. Saí da casa dos meus pais em 1983 para 1984, foi quando eu comecei realmente a largar a faculdade, então realmente eles começaram a ficar meio assim. Porque ainda assim a música, um músico profissional, mas músico artista, aquele que quer criar uma carreira, é uma atividade, uma profissão muito efêmera. Nada te garante que você vai ter sucesso, você pode ter talento, mas não conseguir sucesso.

 

Eu nem parei para pensar porque era próprio da juventude, eu fui no meu instinto e no que eu queria fazer, e também tem o seguinte, não era o papai e a mamãe que bancavam, meus pais não tinham condições. Eu fui ter sorte naquela época quando eu fui morar numa república com uns amigos e o pouquinho que eu ganhava dava para pagar o aluguel, não tinha ninguém que me subsidiava na minha carreira.

 

E a coisa acabou dando muito certo. Eu não recomendaria isso para um filho, se a minha filha quisesse fazer a mesma coisa, eu sinceramente ia explicar para ela que seria bom desenvolver paralelamente uma carreira profissional em uma área que se gostasse, porque não adianta você ter talento, o talento não garante nada. Você precisa de um pouco de circunstância, de sorte. São muitas variáveis e quando a gente é jovem a gente sempre pensa que o talento e a vontade de vencer são determinantes, mas tem outras variáveis, outras circunstâncias, até o gênero de música que você escolhe. Por exemplo, se eu fosse hoje começar como um artista de rock, dificilmente eu teria o sucesso que eu tive, porque hoje o rock não é mais um fenômeno como era, que transformou os anos 80 e 90. Eu era a pessoa certa, no lugar certo com as pessoas certas. Então, esse foi o primeiro erro que deu certo.

 

O outro erro foi a separação do Ira! A separação em si ela era necessária, era importante, era algo que eu sabia que teria que acontecer e eu já havia anunciado isso. Num momento de muito sucesso do Ira!, que foi logo após o acústico, eu vi que o ambiente da gente não estava legal e tinha muitas coisas erradas no nosso relacionamento, fruto de stress do sucesso, fruto também da ansiedade que eu e o Edgar que somos os líderes do Ira! tínhamos em relação aos nossos anseios artísticos, pessoais, os trabalhos solos que na verdade não tinham espaço. A gente lançava disco, mas não tinha tempo para divulgá-los, viajar, fazer show, sentir saudades do Ira!.

 

Bom, o erro foi que eu forcei a barra para o Ira! acabar, mas eu e o Edgar sabíamos que tinha que parar. Faltou uma comunicação da liderança, que estava tão distanciada que a gente dilui a nossa liderança entre muitas pessoas. Tem aquele ditado que fala “um cachorro com muitos donos morre de fome” então o Ira! acabou ficando assim, todo mundo mandava no Ira!, todo mundo dava ideias.

 

O erro foi que, ao invés de eu ter tratado isso de uma maneira serena e assertiva, eu chamei um advogado e falei: “Olha, eu confio em você como advogado, eu não quero mais falar com esses caras, você vai lá e conversa, fala que acabou”. Eu acabei trocando os pés pelas mãos, o Ira! acabou com um final triste, escandaloso, num negócio de agressão, teve processos judiciais, um horror. Passado isso aí, eu segui minha carreira solo. Acho que para todo mundo não teria mais volta, porque nós nos xingamos pela imprensa, nós nos processamos.

 

O que aconteceu, abaixada a poeira, é que eu fui tocar minha carreira, o Edgar também foi tocar a dele com projetos bacanas, se saciou de todas as possibilidades que a liberdade dá, mesmo ganhando menos dinheiro.  O Edgar fez vários projetos super elogiados, eu tive um disco que eu lancei em 2010 que foi indicado ao Grammy Latino, algo que nem com o Ira! eu consegui ser indicado ao Grammy Latino.

 

Bom, mesmo ganhando menos dinheiro, mas ganhando o suficiente para manter meu padrão de vida, eu adquiri uma autoestima, não que eu não tivesse, mas eu evoli como artista, eu adquiri mais confiança com meu taco. Eu vi que as minhas ideias pessoais, solo, elas funcionavam além da minha cabeça.

 

Eu acho que tudo isso fez com que a gente se satisfizesse, até o ponto que a nossa briga se tornou irrelevante perante a nossa história, perante a nossa parceria já desde a adolescência, e aí várias circunstâncias fizeram com que a gente se reencontrasse. Tivemos um convite da Virada Cultural para fazer um show do Ira! em 2014, que foi um fenômeno, nós abrimos a virada cultural em 2014 com 50 mil pessoas gritando o nosso nome e isso gerou a nossa volta. Uma volta que foi incrível, essa volta talvez esteja sendo um dos melhores momentos de toda a nossa carreira, em 2 anos fizemos mais de 200 shows, num outro clima, também com músicos diferentes, mudamos a banda porque era necessário. Porque o Ira! sou eu e o Edgard, tiveram outas pessoas que gravaram com o Ira!, outras formações, vários caras que eu respeito que gravaram, mas quem sempre pensou o Ira!, criou o Ira! e tocava o Ira!, falava pelo Ira! e compunha pelo Ira! era eu e ele.

 

Tinham pessoas que na verdade não traziam mais sangue novo para o trabalho. A gente remontou a banda com outros dois músicos que deram um sangue novo, que trouxeram um ímpeto, que também trouxeram um respeito às nossas ideias. Também fizemos um pacto de que daqui pra frente respeitar o tempo do nosso trabalho solo, e isso colocou o Ira! de novo num patamar que poucas vezes a gente teve.

 

O jornal O Globo, em dezembro de 2014, colocou o show do Ira! como um dos 10 melhores shows que passaram pela cidade do Rio de Janeiro, incluindo show internacionais. De artista nacional só tinha o Ira! e o Gilberto Gil. O jornal Zero Hora, de Porto Alegre, colocou o show do Ira!, da volta do Ira!, como um dos 10 melhores shows que passaram por Porto Alegre em 2014. Fomos para o Rock in Rio, nós fizemos uma média de 200 shows nesses dois anos e mais que isso, num clima super legal.

 

Moral da história: Uma coisa que eu fiz errado, de uma maneira errada, mas ela tinha que acontecer porque se não acontecesse, se eu fosse ponderando, se eu fosse sempre ouvindo, (digamos assim) o centrão da banda, a gente ia estar consumindo a nossa alma e talvez acabasse de uma maneira definitiva. Porque tem essa coisa, casais que separam brigando é porque ainda existe um amor, mas se acaba, ah tudo bem, é estranho.

 

Nasi

O Nasi é o professor Marcos que virou cantor.

 

O depoimento foi gravado e transcrito pela NOZ.

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